Durmo e Acordo


Durmo e acordo aqui enfrentando a decadência. Vivo constantemente pensando em você e em quando éramos jovens.

Jovens e tolos.

Levo minhas mãos à cabeça e com dificuldade prendo o que restou dos meus cabelos, agora totalmente brancos. Minhas mãos tremem com o maldito mal de Parkinson, fazendo com que eu derrube os grampos que seguro.

Olho para minha neta e ela tenta me ajudar à pega-los no chão, grito com raiva, a inutilidade a qual me encontro revolta-me.

A pobre garota sai chateada e com os olhos marejados de lagrimas. Sinto-me culpada, mas não suporto a piedade. Não suporto esta presa a esta carcaça já desgastada quando ainda me sinto tão jovem.

Um galho da arvore do vizinho, bate na janela do meu quarto, praguejo baixo.  Aquele maldito, não poda esta arvore e agora me distrai do meu mais novo romance, que na verdade não tem nada de novo.

Durmo e acordo com essa mesma sensação.

Sei que ela esta próxima

Então por que não vem me buscar de uma vez por todas e acaba com essa agonia?

Morte vem, imploro.

Morte vem, leva-me contigo.

Imploro...

A minha cabeça dói, deve ser mais uma daquelas enxaquecas terríveis, desisto de tentar ler, seu rosto vem a minha mente como se eu estivesse novamente com dezessete anos e tivesse lhe conhecido ontem.

O cheiro limpo das roupas que usava e a fragrância dos seus cabelos espalham-se pelo quarto e invadem as minhas narinas. Vejo sua sombra se mexer no canto do quarto, perto da porta, ela me tenta, me seduz, dança junto com os flashes do meu abajur como você em nossa noite de núpcias.

Levanto, e me arrastando tento tocar a sombra, quase consigo sentir seu corpo, seu calor...
Estou delirando me dou conta.
De novo.

Surto começo a gritar, minha filha chega a meu quarto com uma expressão preocupada, pergunta o que aconteceu, falo a verdade, conto da sombra, sua sombra, mas ela não acredita em mim, diz que estou tendo uma crise de novo. Desisto.

Confesso, às vezes acho que estou louca. 

Durmo e acordo e é sempre a mesma coisa.