Ela era uma boneca de porcelana,
linda, moderna, inteligente e simpática, as forças do universo a tinham presenteado
com quase tudo. Quase... Pois lhe faltava a compaixão, ela não pensava em
ninguém além de si mesma, não pensava em sua família, suas amigas ou mesmo seus
amores.
Um belo dia, ela conheceu um
rapaz que se interessou por tudo que aparentava ser, frieza obscura disfarçada
por uma gentileza sutil e juvenil. O rapaz não menos humano que os outros que
passaram por sua vida se encantou com a sua beleza, com as suas ideias, com seu
bom humor e foi ficando cada vez mais apaixonado. E ela não menos satisfeita uma
vez que seu ego estava cada vez mais inflado, fazia-lhe juras de amor e lhe
prometia a mais sincera devoção, porém quando ele não estava por perto ria da
cara dele, da cara patética de apaixonado, das coisas que fazia por ela e das
bobas promessas de amor. Ela era assim, cruel com todos.
Até que um dia o pobre começou a
se cansar da boneca e se interessar por outra de coração tão puro e atitudes
tão verdadeiras, que nada lhe prometia exceto o hoje, pois esta acreditava que o
amanhã não se podia definir.
Ele começou então a se afastar da
boneca de porcelana, a mesma ao perceber que estava perdendo seu “amor”, que já
não tinha mais ninguém para inflar seu ego, que já não tinha seus elogios pelas
manhãs e nem a sua atenção, partiu em uma busca doentia para tê-lo de volta.
Ela não contava com o não sucesso
de sua missão, ela estava destinada a ganhar. Ganhar sempre. Mesmo que passasse
por cima dos outros, mesmo que destruísse a vida da outra que estava realmente
apaixonada, mesmo que não o amasse e logo ela fosse enjoar.
Aquela não era uma discussão
sobre sentimentos, era sobre quem ela era A BONECA DE PORCELANA, que não podia
receber um não, que não podia não ser o centro das atenções, que não podia ser
a menos inteligente, que não podia batalhar pelo que quer.
Porque ela estava
acostumada a ter tudo fácil, tudo em suas mãos, regalias que lhe foram concebidas
pela beleza; estava acostumada a ter os melhores postos regalia concebida pela inteligência;
estava acostumada a ter sempre êxito regalia concebida pela sua fútil e falsa
simpatia.
No entanto, ao chegar ao seu
destino a boneca percebeu pela primeira que não seria tão fácil, que enfim
tinha uma oponente a sua altura, uma genuína que não aparentava, ela
simplesmente era e isso a irritava de tal forma que todos os dias ela dizia ou
fazia algo para destruir lhe a confiança e amor no rapaz, porém a outra esperta
e experiente apenas fingia lhe dar ouvidos, quando cansou das suas
maldades e disse:
- Minha cara boneca de porcelana,
você é linda, porém fria e vazia, você cai de qualquer altura e quebra. Eu não. Eu sou chumbo, eu sou gente, eu
aguento e permaneço! E nada do que faça ou diga vai me impedir de seguir em
frente. Adeus.
E depois disso ela e o jovem
rapaz foram felizes para sempre...
E a boneca... A boneca ainda está
entre nós...
Por Jessica Florentino