Fuga...


Eu o afugentara tinha certeza de que havia feito isso, pois o que explicaria o seu comportamento rude e nada sutil diante de uma paquera? 
Verifiquei se havia algum mau odor saindo de mim, mas nada... Eu estava até mesmo cheirosa! 

Ele estava sentado e o seu material de estudo estava sobre a mesa, porém desta vez estava lá largado, abandonado. Ao invés disso o telefone era quem mantinha a sua total atenção, estava com ele no ouvido discutindo as prestações do carro, a hipoteca da casa, a guarda dos filhos...
Aparentemente aquele pobre homem havia cometido o típico erro de se casar por amor. Somente amor.
E esse amor acabara mais rápido do que jamais imaginara, depois da sua segunda ou terceira demissão, esta última sendo provocada pelo seu antigo e audacioso sonho de largar tudo e se tornar escritor. 

Seu olhar estava distante, vazio como um deserto e ele fazia gestos rápidos e confusos no ar ainda falando ao telefone, como se a pessoa do outro lado da linha pudesse vê-lo. 
Talvez isso o fizesse se sentir melhor ou mais calmo. Deduzi observando-o. 
Ao me ver baixou o seu tom de voz até o último volume e foi embora sem sequer me cumprimentar. Afugentando a mim ou a si mesmo. Só não entendi o porquê.


(Jessica Florentino)