Alice


É dia 7 de setembro, as escolas se preparam para o desfile anual, o qual perdera completamente o seu sentido de comemoração a independência para o simples e fútil deslumbre de aparecer em público, eu sei disso e mesmo assim lá estou eu toda feliz, patriota desfilando, quando vejo um homem na plateia olhar-me fixamente. Um arrepio percorre a minha espinha dorsal, me desconcentrando. A passeata segue, e sou praticamente atropelada pelos outros estudantes e recebendo de mal grado alguns gritos da minha professora, continuo. 

O desfile acaba com poucos aplausos e muito descaso, eu não consigo comemorar, só me sinto aliviada, por não estar mais sob a vista do homem misterioso. 

Na volta para casa, sinto como se estivesse sendo seguida, olho para trás diversas vezes desapontando a minha própria superstição quando não encontro nada de suspeito, apenas o vão da rua, algumas árvores e casas. 

Assusto-me com meus próprios pensamentos, dividida entre o querer e não querer saber sua identidade. 

No outro dia, retorno a minha rotina, levanto, tomo o meu banho, ouço algumas discussões dos meus pais, sobre o aluguel, as parcelas do carro recém-comprado, sobre quanto custa o colégio em que estudo, fecho os ouvidos, não literalmente. Vou até a cozinha e preparo o meu próprio café da manhã, desejo bom dia, eles não ouvem estão absortos demais na discussão, no mundo dos adultos. Desisto de tomar café e pego uma fruta, ponho ração para a minha gata, pego minha mochila e entro no carro, buzino, meu pai sai com a cara de pouca amizade, não diz nada, eu também não arrisco quebrar o gelo. Ele da partida, e eu passo o caminho inteiro olhando pela janela, me perguntando por que eles não se separam logo? Seria por minha causa? 

- Tchau pai. Digo ao sair do carro. 

- Tchau filha. Ele responde sem sequer virar o rosto, rapidamente fechando o vidro. Obviamente evitando-me. 

Sento-me no banco em frente ao pátio esperando pelo retorno do meu pai, a escola está praticamente vazia, ele me esqueceu, de novo. Ponho meus fones de ouvido, uma musica alta, agitada, sempre ajudou a me acalmar, nunca falhava.

De repente um carro preto para a minha frente e posso ver o reflexo de uma adolescente, um tanto estranha, cabelos loiros com mechas negras, ou talvez seja o contrário, nariz arrebitado e olhos puxados escuros, roupas largas e enormes fones coloridos, antes de terminar a analise da minha própria aparência um homem desce o vidro do carro e sorri. O sorriso dele dói na minha alma. 

- Oi. Tudo bem? Diz ele tirando os óculos escuros, seus olhos tão negros como os de um demônio, ele aparenta ter a idade do meu pai ou um pouco menos, cabelos grisalhos, lisos, pele morena clara, agrada-me a aparência do homem, sem saber o porquê inquieto-me.

- Oi, sim. Respondo simplesmente, mexendo as pernas, e retirando os fones de ouvido. 

- Precisa de uma carona? 

- Não, obrigada. 

- Ok, então nos vemos por ai Alice. 

Alice? Eu me pergunto por que ele me chamara assim, esse não é meu nome, mas gosto da forma como ele soa.

Alice. Era bom ter uma nova personalidade. Alice. Como no país das maravilhas...

Então decidi que depois daquele dia eu seria duas, eu mesma, adolescente de quinze anos, com cabelos engraçados, pais que deveriam estar divorciados e uma gata muito mal educada, e outra Alice, uma jovem, determinada e extrovertida.

Sinto dor de cabeça, ao ligar as linhas e criar uma ponte entre o passado e o agora. Olho meu rosto no espelho, sempre encontrei um certo tipo de magia em espelhos, eles refletem aqueles segredos que guardamos em nossa alma, escondidos até de nós mesmos.

Desço as escadas, mais um dia. No entanto não os cumprimento, hoje sou Alice uma jovem alegre e nem ai com a vida, meus pais como esperado, não reparam, a mudança é sutil, vou para o carro, mas desta vez não buzino, ponho os fones de ouvido, acesso o whatsapp, qualquer coisa que me distraia da falta de comunicação com meus pais. 

Última parada. 

- Tchau pai. 

- Tchau filha... Ei? Filha hoje eu não vou poder vir te buscar, aqui tem dinheiro para o ônibus. Diz ele e estica a mão em minha direção. 

- Ok. Pego o dinheiro e dou as costas. 

Enquanto espero no ponto de ônibus, um carro para, o mesmo carro preto do outro dia, o vidro desce mais devagar dessa vez, revelando o mesmo homem. 

- Oi e ai Alice? Tudo bem?

- Oi, tudo bem. Respondo. 

- Precisa de carona? 

Sim, eu preciso, ou... não, eu não preciso, nem sequer te conheço e você tem idade para ser meu pai! 

Mas hoje eu não sou eu, hoje sou A-li-ce. 

- Na verdade... É... Eu preciso. 

A porta se abre e a Alice que há em mim se joga no abismo.


Por Jessica Florentino