Nem mesmo o tempo...


O dia estava quase amanhecendo, mas ela não descansou.

Há dias que não dormia, nem comia. 
Sua vida estava no automático. 
Sempre foi assim, doloroso e estático. Nunca admitiria! 
Primeiro ela pensou que a culpa fosse do seu cabelo, longo, negro, sedutor… Então o cortou, caindo naquele ditado de que “se corta o mal pela raiz”, no entanto, logo viu que aquilo de nada adiantaria. 
Depois notou que sempre se sentia sufocada com a cor do seu quarto, rosa enjoativo, então resolveu pintá-lo de azul de modo a trazer tranquilidade, o que até aconteceu por alguns momentos, porém não demorou a perceber que essa mudança não era capaz de acalmar os seus pensamentos, seus sentimentos, seus sofrimentos… 
Por fim, decidiu seguir o conselho dos mais velhos e se ocupar, afinal “mente vazia é oficina do diabo” e ocupou todo o seu dia, a tarde trabalhava, a noite estudava, finais de semana e feriados eram dedicados aos caprichos do seu namorado e pelas manhãs recuperava o sono. 
Assim ficou sem tempo, mas… aquele vazio… aquela dor… 
Não cessava nunca! 
Pouco importava o comprimento, a cor ou o tempo. 
Nem mesmo o tempo era capaz de conter tamanha ansiedade e tristeza. 

    

Por Jessica Florentino 

A garota de rosa


Fiquei observando de longe…
Ele falou algo e a garota de rosa saiu da mesa tendo a decência vergonhosa de pagar a sua parte da conta. Ela caminhou rápido sem aparentar se importar com os olhares, a sua volta, foi para longe, sentou-se na praça, o viu sair sem olhar para trás, como tantas vezes fizera.
Dor e humilhação a dominaram e ela chorou com pena de si mesma e do seu coração.
Desiludida e patética de rosa na praça.
Pranto e dor.
Dor de amor ou ausência dele.


(Meu diário 2 - pág. 17)

Sensation


Hoje acordei com a sensação de ter sido jogada no espaço, sem chão, sem gravidade.

(Meu diário 2 - pág. 20 - Jessica Florentino)


Saiba mais: https://super.abril.com.br/ciencia/mito-nao-ha-gravidade-no-espaco/

Contagem do tempo...



Noventa e três anos de luta e dor resumidos em apenas alguns minutos.
Nunca pensei que seria eu a presenciar aquele momento.
O rosto dele foi perdendo a cor e embora o seu corpo ainda estivesse quente, o sangue não pulsava mais e como um relógio que acaba a pilha e pausa a contagem do tempo, seu coração simplesmente parou.
Enquanto íamos ao velório reparei melancolicamente nas ruas, carros, buzinas, auto-falantes, rotina, tudo parecia como um dia qualquer, mas carregávamos a dor da morte, cada um ali sentia o seu luto aumentar a medida em que o carro avançava. Mas fora daquele carro o sol brilhava como jamais brilhara e a vida continuava “normal”.


(Meu diário 2 - pág. 25 por Jessica Florentino)

O que eu queria...


Eu já não aguento mais as suas idas e vindas, esse relacionamento bambolê...
 
Queria que percebesse que a forma como tem me tratado está destruindo o que me fez gostar de você...
Sua gentileza, seu carinho e o seu dom de me dizer o que queria ouvir, mesmo quando eu nem sabia o que era.
Queria que você mudasse.
Que você voltasse.
Que nos colocasse acima do seu orgulho, dos seus preceitos, dos seus preconceitos. Que pensasse sobre tudo que tem feito ou deixado de fazer, tudo que tem dito
Eu só quero ser feliz e sentir que faço alguém feliz também.
Alguém que não me encha de julgamentos, alguém que não faça com que eu tenha vontade de ser outra além de mim.

(J.F.)



Amei


Eu amei você.
Amei você quando me tratou com gentileza
Amei você quando me tratou mal.
Amei você quando demonstrou seu afeto e seu desafeto também.
Amei quando confiou, quando destratou...
Eu te amei mais que a mim.
Eu sempre te amei, mas por necessidade.. 
Por sobrevivência...
Esse “amei” precisa morrer.

(J.F.)

Solidão


A solidão vai além da falta de presença física, da atenção...

A solidão é como um buraco negro, um vazio que sentimos e não sabemos a extensão da sua natureza, só sabemos que pode nos engolir e nos enganar como areia movediça.

A solidão é perigosa, fascinante, desafiadora, desanimadora e inevitável, os seres solitários serão sempre solitários, independentemente da sua família, das suas relações... A solidão não é uma escolha é um destino, uma característica, um carma, uma sina.

(Meus pensamentos - J.F.)

Desvio


Luzes incandescentes iluminavam o seu rosto, árvores, neblina e prédios abandonados completavam a paisagem ao nosso redor, tudo mágico, misterioso, assombroso.  
Fomos dar uma volta e ao longo do caminho ele me fez perguntas sobre a minha vida.  Estranhei.
Ele sempre fora próximo, mas não tão atencioso assim.  

Então, ele me olhou de um jeito diferente e eu fiquei me questionando se tinha feito a escolha correta.
Seu olhar era tão intenso e a sensação que eu tinha era que ele havia paralisado o meu.

De repente, o medo me assolou, fiquei apreensiva: “E se que alguém me visse naquela situação, no mínimo, suspeita e entendesse tudo errado? ” Afinal as pessoas tendem a ilusão - acreditam sempre naquilo que querem e não no que realmente é.

Ele não pareceu notar minha angustia e se notou, fez pouco caso. Aproximou-se e disse:

- Está frio aqui, não acha? E sem esperar pela resposta veio em minha direção e me puxou, como quem pega um brinquedo elástico.
Meu corpo era minúsculo em comparação ao dele, seu cheiro era agradável e por mais transgressor que pudesse ser, eu gostei da sensação do seu corpo envolto ao meu, suspirei, naquele instante lembro de ter pensado:
“Isso não pode ser mais certo”.

E se alguém pudesse ler todos os meus pensamentos acharia que eu estava ficando louca ou que havia em minha personalidade um sério desvio de caráter, mas não se tratava nem de uma coisa, nem da outra. Nós dois sabíamos do que se tratava.

- Precisamos ir. Anunciei quebrando o elo e interrompendo o burburinho na minha própria cabeça.

- Por que tão cedo? Perguntou, seu tom de voz parecia levemente confuso, mas quando eu o encarei, senti que ele também sabia do que eu desviava.

E sem respostas me desaninhou e do desvio se foi.


Por: Jessica Florentino

Lagoa Azul


Uma garota entra no bar, pede um drink, lagoa azul, leva-o a boca, saboreia e então começa a chorar. Dois rapazes a distancia começam a observar.
Entra um casal, ela é jovem, ele é experiente.
Retrospectiva.
Lagoa azul. Baseado. Celulares desligados. Fumaça. Borrão de batom. Quarto de motel barato e mais fumaça.
Bar, lagoa azul.
Lágrimas. Soluços, e não necessariamente nessa ordem.

Agora todos observam. Um dos rapazes pensa em ir consolar a moça, mas logo desiste, pensa que não tem nada com aquilo e logo se distrai com algo mais interessante como as redes sociais.  
Desolada, abandonada, sozinha no bar.

Pede mais um drink azul e retorna a chorar. O seu whasapp começa a tocar.
28 mensagens não lidas. 25 correntes de réveillon, 1 da sua mãe, 1 do trabalho e outra mensagem de alguém que finge se importar:

“- Como você está?”

“-Estou b... Digita, no entanto, logo substitui por:

“Estou azul.”

Dois traços azuis, mensagem visualizada, sem resposta.
E assim continua azul em um bar.

(Pág.7 – Diário/2)