Diálogo


- Eu sou tudo. 

Diz ele com seu tom arrogante acariciando levemente o meu braço com o dedo indicador. Viro o corpo em direção à janela, afasto-me, levanto meu copo de uísque e levo até a minha boca, engulo o liquido amargo e digo em resposta: 

- Não. Você não é nada, é apenas uma sombra de algo que ficou para trás.

(Jessica Florentino)

Alice


É dia 7 de setembro, as escolas se preparam para o desfile anual, o qual perdera completamente o seu sentido de comemoração a independência para o simples e fútil deslumbre de aparecer em público, eu sei disso e mesmo assim lá estou eu toda feliz, patriota desfilando, quando vejo um homem na plateia olhar-me fixamente. Um arrepio percorre a minha espinha dorsal, me desconcentrando. A passeata segue, e sou praticamente atropelada pelos outros estudantes e recebendo de mal grado alguns gritos da minha professora, continuo. 

O desfile acaba com poucos aplausos e muito descaso, eu não consigo comemorar, só me sinto aliviada, por não estar mais sob a vista do homem misterioso. 

Na volta para casa, sinto como se estivesse sendo seguida, olho para trás diversas vezes desapontando a minha própria superstição quando não encontro nada de suspeito, apenas o vão da rua, algumas árvores e casas. 

Assusto-me com meus próprios pensamentos, dividida entre o querer e não querer saber sua identidade. 

No outro dia, retorno a minha rotina, levanto, tomo o meu banho, ouço algumas discussões dos meus pais, sobre o aluguel, as parcelas do carro recém-comprado, sobre quanto custa o colégio em que estudo, fecho os ouvidos, não literalmente. Vou até a cozinha e preparo o meu próprio café da manhã, desejo bom dia, eles não ouvem estão absortos demais na discussão, no mundo dos adultos. Desisto de tomar café e pego uma fruta, ponho ração para a minha gata, pego minha mochila e entro no carro, buzino, meu pai sai com a cara de pouca amizade, não diz nada, eu também não arrisco quebrar o gelo. Ele da partida, e eu passo o caminho inteiro olhando pela janela, me perguntando por que eles não se separam logo? Seria por minha causa? 

- Tchau pai. Digo ao sair do carro. 

- Tchau filha. Ele responde sem sequer virar o rosto, rapidamente fechando o vidro. Obviamente evitando-me. 

Sento-me no banco em frente ao pátio esperando pelo retorno do meu pai, a escola está praticamente vazia, ele me esqueceu, de novo. Ponho meus fones de ouvido, uma musica alta, agitada, sempre ajudou a me acalmar, nunca falhava.

De repente um carro preto para a minha frente e posso ver o reflexo de uma adolescente, um tanto estranha, cabelos loiros com mechas negras, ou talvez seja o contrário, nariz arrebitado e olhos puxados escuros, roupas largas e enormes fones coloridos, antes de terminar a analise da minha própria aparência um homem desce o vidro do carro e sorri. O sorriso dele dói na minha alma. 

- Oi. Tudo bem? Diz ele tirando os óculos escuros, seus olhos tão negros como os de um demônio, ele aparenta ter a idade do meu pai ou um pouco menos, cabelos grisalhos, lisos, pele morena clara, agrada-me a aparência do homem, sem saber o porquê inquieto-me.

- Oi, sim. Respondo simplesmente, mexendo as pernas, e retirando os fones de ouvido. 

- Precisa de uma carona? 

- Não, obrigada. 

- Ok, então nos vemos por ai Alice. 

Alice? Eu me pergunto por que ele me chamara assim, esse não é meu nome, mas gosto da forma como ele soa.

Alice. Era bom ter uma nova personalidade. Alice. Como no país das maravilhas...

Então decidi que depois daquele dia eu seria duas, eu mesma, adolescente de quinze anos, com cabelos engraçados, pais que deveriam estar divorciados e uma gata muito mal educada, e outra Alice, uma jovem, determinada e extrovertida.

Sinto dor de cabeça, ao ligar as linhas e criar uma ponte entre o passado e o agora. Olho meu rosto no espelho, sempre encontrei um certo tipo de magia em espelhos, eles refletem aqueles segredos que guardamos em nossa alma, escondidos até de nós mesmos.

Desço as escadas, mais um dia. No entanto não os cumprimento, hoje sou Alice uma jovem alegre e nem ai com a vida, meus pais como esperado, não reparam, a mudança é sutil, vou para o carro, mas desta vez não buzino, ponho os fones de ouvido, acesso o whatsapp, qualquer coisa que me distraia da falta de comunicação com meus pais. 

Última parada. 

- Tchau pai. 

- Tchau filha... Ei? Filha hoje eu não vou poder vir te buscar, aqui tem dinheiro para o ônibus. Diz ele e estica a mão em minha direção. 

- Ok. Pego o dinheiro e dou as costas. 

Enquanto espero no ponto de ônibus, um carro para, o mesmo carro preto do outro dia, o vidro desce mais devagar dessa vez, revelando o mesmo homem. 

- Oi e ai Alice? Tudo bem?

- Oi, tudo bem. Respondo. 

- Precisa de carona? 

Sim, eu preciso, ou... não, eu não preciso, nem sequer te conheço e você tem idade para ser meu pai! 

Mas hoje eu não sou eu, hoje sou A-li-ce. 

- Na verdade... É... Eu preciso. 

A porta se abre e a Alice que há em mim se joga no abismo.


Por Jessica Florentino

Fuga...


Eu o afugentara tinha certeza de que havia feito isso, pois o que explicaria o seu comportamento rude e nada sutil diante de uma paquera? 
Verifiquei se havia algum mau odor saindo de mim, mas nada... Eu estava até mesmo cheirosa! 

Ele estava sentado e o seu material de estudo estava sobre a mesa, porém desta vez estava lá largado, abandonado. Ao invés disso o telefone era quem mantinha a sua total atenção, estava com ele no ouvido discutindo as prestações do carro, a hipoteca da casa, a guarda dos filhos...
Aparentemente aquele pobre homem havia cometido o típico erro de se casar por amor. Somente amor.
E esse amor acabara mais rápido do que jamais imaginara, depois da sua segunda ou terceira demissão, esta última sendo provocada pelo seu antigo e audacioso sonho de largar tudo e se tornar escritor. 

Seu olhar estava distante, vazio como um deserto e ele fazia gestos rápidos e confusos no ar ainda falando ao telefone, como se a pessoa do outro lado da linha pudesse vê-lo. 
Talvez isso o fizesse se sentir melhor ou mais calmo. Deduzi observando-o. 
Ao me ver baixou o seu tom de voz até o último volume e foi embora sem sequer me cumprimentar. Afugentando a mim ou a si mesmo. Só não entendi o porquê.


(Jessica Florentino)

O que esperar do amanhã que não nos promete?


Ela estava deitada, inerte, sua visão fazia com que tudo girasse a sua volta, embora nada saísse do lugar, notas espalhavam-se por todos os lados, notas musicais de uma canção triste, ela sabia que era triste, mas ela não sentia a melancolia, estava asfixiada como um cadáver, um inútil cadáver!

Ela já não sentia dor, ela já não sentia...

Era só o vazio e ele conseguia ser ainda mais sufocante que a dor, pois enquanto sentia a ferida arder e incomodar sabia que ainda estava ali, tinha a certeza de que estava viva, mas e quando não há mais nada?

O que esperar do amanhã que não nos promete?

Ela queria gritar para ver se causaria alguma reação, alto para ver se seu coração batia mais rápido, talvez ficar revoltada, alegre...

Sentir-se bem ou mal já não importava, queria apenas sentir...
Sentir para reviver, sentir para que pudesse ter a certeza de que nada havia acabado.


(Jessica Florentino)

Boneca de Porcelana



Ela era uma boneca de porcelana, linda, moderna, inteligente e simpática, as forças do universo a tinham presenteado com quase tudo. Quase... Pois lhe faltava a compaixão, ela não pensava em ninguém além de si mesma, não pensava em sua família, suas amigas ou mesmo seus amores.

Um belo dia, ela conheceu um rapaz que se interessou por tudo que aparentava ser, frieza obscura disfarçada por uma gentileza sutil e juvenil. O rapaz não menos humano que os outros que passaram por sua vida se encantou com a sua beleza, com as suas ideias, com seu bom humor e foi ficando cada vez mais apaixonado. E ela não menos satisfeita uma vez que seu ego estava cada vez mais inflado, fazia-lhe juras de amor e lhe prometia a mais sincera devoção, porém quando ele não estava por perto ria da cara dele, da cara patética de apaixonado, das coisas que fazia por ela e das bobas promessas de amor. Ela era assim, cruel com todos.

Até que um dia o pobre começou a se cansar da boneca e se interessar por outra de coração tão puro e atitudes tão verdadeiras, que nada lhe prometia exceto o hoje, pois esta acreditava que o amanhã não se podia definir.  
Ele começou então a se afastar da boneca de porcelana, a mesma ao perceber que estava perdendo seu “amor”, que já não tinha mais ninguém para inflar seu ego, que já não tinha seus elogios pelas manhãs e nem a sua atenção, partiu em uma busca doentia para tê-lo de volta.

Ela não contava com o não sucesso de sua missão, ela estava destinada a ganhar. Ganhar sempre. Mesmo que passasse por cima dos outros, mesmo que destruísse a vida da outra que estava realmente apaixonada, mesmo que não o amasse e logo ela fosse enjoar.
Aquela não era uma discussão sobre sentimentos, era sobre quem ela era A BONECA DE PORCELANA, que não podia receber um não, que não podia não ser o centro das atenções, que não podia ser a menos inteligente, que não podia batalhar pelo que quer.
Porque ela estava acostumada a ter tudo fácil, tudo em suas mãos, regalias que lhe foram concebidas pela beleza; estava acostumada a ter os melhores postos regalia concebida pela inteligência; estava acostumada a ter sempre êxito regalia concebida pela sua fútil e falsa simpatia.

No entanto, ao chegar ao seu destino a boneca percebeu pela primeira que não seria tão fácil, que enfim tinha uma oponente a sua altura, uma genuína que não aparentava, ela simplesmente era e isso a irritava de tal forma que todos os dias ela dizia ou fazia algo para destruir lhe a confiança e amor no rapaz, porém a outra esperta e experiente apenas fingia lhe dar ouvidos, quando cansou das suas maldades e disse:

- Minha cara boneca de porcelana, você é linda, porém fria e vazia, você cai de qualquer altura e quebra.  Eu não. Eu sou chumbo, eu sou gente, eu aguento e permaneço!  E nada do que faça ou diga vai me impedir de seguir em frente. Adeus.

E depois disso ela e o jovem rapaz foram felizes para sempre...

E a boneca... A boneca ainda está entre nós...


Por Jessica Florentino