Destroços...


Destroços na estrada

A dama de vermelho 

Já não acreditava em nada,

Permutava-se, se questionava, pensava em nada.



Destroços na estrada

Tudo começou numa madrugada

Muitas palavras

Poucas promessas

Prometia ser irreal, mas não era.



Destroços na estrada

Não era um conto de fadas

Não havia transgressão

Ou motivo vivo

Apenas negação, repetição.



Destroços na estrada

A coitada da dama

Sangrava

Sangrava sozinha

Havia sido esfaqueada!



Destroços na estrada

O vestido branco

Agora vermelho

Já não mais tinha graça...



“- A vida garota! Acorda!” 

[Gritou alguém de fora do poema...].

“- Olhe a vida ao redor, junte seus pedaços e grite!”



Destroços na estrada 

A dama se levantou...

Catou o que lhe restava

E nunca mais voltou.


(Jéssica Florentino)

O gato preto


"Quem se não surpreendeu já uma centena de vezes cometendo uma ação néscia ou vil, pela única razão de saber que não devia cometê-la? Não temos nós uma inclinação perpétua, pese ao melhor do nosso juízo, para violar aquilo que constitui a Lei, só porque sabemos que o é?"

(Extraído do conto "O gato preto" - Allan Poe)

A última flor




A décima segunda guerra mundial, como todos sabem, trouxe o colapso da civilização.

Vilas, aldeias e cidades desapareceram da terra. Todos os jardins e todas as florestas foram destruídas. E todas as obras de arte.

Homens, mulheres e crianças tomaram-se inferiores aos animais mais inferiores.

Desanimados e desiludidos, os cães abandonaram os donos decaídos.

Encorajados pela pesarosa condição dos antigos senhores do mundo, os coelhos caíram sobre eles.

Livros, pinturas e música desapareceram da terra e os seres humanos ficavam sem fazer nada, olhando no vazio. Anos e anos se passaram.

Os poucos sobreviventes militares tinham esquecido o que a última guerra havia decidido.

Os rapazes e as moças apenas se olhavam indiferentemente, pois o amor abandonara a terra.

Um dia uma jovem, que nunca tinha visto uma flor, encontrou por acaso a última que havia no mundo. Ela contou aos outros seres humanos que a última flor estava morrendo. O único que prestou atenção foi um rapaz que ela encontrou andando por ali. Juntos, os dois alimentaram a flor e ela começou a viver novamente...

Um dia uma abelha visitou a flor. E um colibri. E logo havia duas flores, e logo quatro, e logo uma porção de flores. Os jardins e as florestas cresceram novamente. A moça começou a se interessar pela própria aparência. O rapaz descobriu que era muito agradável passar a mão na moça. E o amor renasceu para o mundo.
Os seus filhos cresceram saudáveis e fortes e aprenderam a rir e brincar. Os cães retornaram do exílio. Colocando uma pedra em cima de outra pedra, o jovem descobriu como fazer um abrigo. E imediatamente todos começaram a construir abrigos. Vilas, aldeias e cidades surgiram em toda parte. E a canção voltou para o mundo. Surgiram trovadores e malabaristas alfaiates e sapateiros pintores e poetas escultores e ferreiros e soldados e soldados e soldados e soldados e soldados e tenentes e capitães e coronéis e generais e líderes!

Algumas pessoas tinham ido viver num lugar, outras em outro. Mas logo as que tinham ido viver na planície desejavam ter ido viver na montanha. E os que tinham escolhido a montanha preferiam a planície. Os líderes, sob a inspiração de Deus, puseram fogo ao descontentamento.

E assim o mundo estava novamente em guerra. Desta vez a destruição foi tão completa que absolutamente nada restou no mundo...

Exceto um homem.
Uma mulher.
E uma flor.


(Extraído da peça “O Homem do Princípio ao Fim” de Millôr Fernandes.)



Crime e castigo


"Mas agora, passado um mês, começava já a olhá-los de outra maneira, e, apesar de tudo, dos seus desanimadores monólogos a respeito da sua inércia e indecisão, ia-se acostumando, quase sem querer, a considerar aquele sonho escandaloso como um empreendimento, embora ele próprio não acreditasse nele".

(Extraído do livro "Crime e castigo" de Dostoiévski)
 

Um dia de chuva


A chuva caia com a mesma naturalidade em que as lágrimas escorriam pelo seu rosto. No fim era sempre assim, mas ela não conseguia evitar se sentir deprimida e desolada, a sensação era de ver o chão firme e pisar em falso.

Sentiu uma tontura repentina, tão forte, tão forte, que precisou segurar-se nas grades do portão para não cair.

Costumavam-na chamar de louca, e era mesmo uma louca, uma alucinada, uma iludida!

Quem em pleno século XXI ainda acredita no amor?

Exato. Ela acreditava.

E era por este motivo que naquele momento perdia mais uma vida, que mais uma história estava inacabada.

Ousara ela tão fraca, tão frágil, romper com as normas da sociedade, renunciar a modernidade e insistir no arcaico desejo de amar.

E acabara sozinha.

Velha. Louca. Alucinada. Iludida. E novamente sozinha.

(Jéssica Florentino)