Era uma fotografia antiga,
estática, amarelecida, há muito esquecida na parede suja do porão, fiquei
parada olhando-a por alguns instantes intermináveis, lá estava uma mulher cuja
a vida transformava a minha mente em uma fábrica de teorias, cabelos longos
loiros e ondulados, olhos escuros misteriosos, roupa dos anos cinquenta, um
laço preto adornava sua cabeça num penteado totalmente alinhado, um vestido
igualmente negro com algumas flores brancas, perolas caras, expressão rígida,
entristecida, como se o deleite há muito tivesse sido roubado de si.
Quando voltei ao meu quarto já era tarde da noite, deitei e
revirei na cama e nem sequer um vestígio de sono apareceu, isso por meia, uma,
duas, três horas.
Desisti. Peso na consciência, regredi.
Voltei e lá estava ela, no mesmo lugar, com a mesma roupa e
mesma expressão, assustadoramente parada, lastimável, por um momento tive o
delírio de que queria comunicar-se comigo. Aquela imagem perdida no tempo,
solitária no espaço, seriamente comprometida a corresponder-se.
Sentei atrás da minha escrivaninha, e me dediquei a
observa-la novamente, cada gesto imóvel, cada expressão da imaginação, as
perguntas disparavam: ”- Quem era? Qual seu nome? Quem eram seus amigos? Seus
amores? Como era sua família, tinha família? Qual teria sido seu destino?”.
Feito isso eu já tinha algumas linhas, mas ainda era pouco,
nada passava de simulações, eu precisava de mais, precisava invadi-la,
descobrir cada detalhe da sua vida: “Quais eram seus medos? Seus segredos?”,
enlouquecida, obcecada, permaneci acordada durante toda a madrugada.
Pela manhã meu filho veio me chamar preocupado: "- Mamãe há
quanto tempo a senhora está aqui?"
Eu estava debruçada sobre meu caderno de anotações, procurei
a fotografia ela permanecia no mesmo lugar, olhei novamente para o papel, a
folha estava preenchida, sorri para o meu filho e respondi:
"- Não sei ao certo". Ele sorriu de volta com uma expressão
ainda confusa, antes de sair com ele notei um relógio parado em baixo de uma
mesa.
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