Um caso de amor e fogo


Nós dois estávamos passeando por aquela rua de sempre, perto do meu colégio, o qual eu estou prestes a me despedir e no antigo colégio do meu namorado o que o causara certo incômodo.

A rua continha alguns restaurantes, alguns deles os mais caros da cidade, estava escuro, apenas lâmpadas incandescentes iluminavam o local, olhei-o de soslaio, estava preocupada, ele estava macambuzio, diferente, calado, o olhar distante. Não sabia decifrar.

Foi então que começamos a ver chamas um pouco mais a frente, ao aproximarmos descobrirmos serem árvores sendo queimadas, fiquei revoltada, não era nem mesmo época de queimadas, tive vontade de ir lá, mas o homem que estava destruindo parecia aparentemente tranquilo, meu namorado que estava ao meu lado, não demonstrou emoção, o que definitivamente me surpreendeu, principalmente pelo fato de ser um profissional do meio ambiente, encarei-o sua expressão gélida, sem sequer uma emoção, nem mesmo seus olhos o delataram, assustei-me, soltei a sua mão revoltada, entrei no restaurante e as pessoas pareciam completamente tranquilas, como se nada estivesse acontecendo, gritei:

- Vocês estão cegos? Não veem que estão destruindo o que há de melhor no mundo?

Mas ninguém sequer olhou para mim, foi então que senti alguém me agarrar, e me puxar para fora do restaurante era o meu namorado, sua testa estava franzida, parecia preocupado, acho que comigo, mas não tenho tanta certeza, ele me abraçou, e eu chorei ainda mais. Olhei ao redor, não era apenas uma árvore, aquele era um desmatamento completo!

A cada esquina havia uma sendo queimada, o homem que destruía a árvore a minha frente encarou-me, e eu não desviei o olhar, queria mostrar o quanto estava decepcionada, talvez isso despertasse alguma humanidade naquele ser. 

Meu namorado apertou minha mão e me obrigou a continuar andando, quando eu parei subitamente e disse:

- O que iremos fazer?

- Nada. Ele respondeu baixo, evitando o meu olhar.

- Olhe para mim. Eu disse.

- Não posso. Ele respondeu.

- Sim, você pode, apenas olhe. Insisti.

Ele obedeceu e me olhou, seus olhos verdes estavam marejados em lágrimas, ele sentia, agora eu sabia, ele sentia a mesma dor que eu, fiquei feliz ao mesmo tempo que meu coração despedaçava-se por vê-lo daquela maneira.

Essa foi a sua vez de olhar o estrago, sua expressão variava de dor à raiva e repulsa, fechou o pulso, ele sentia ódio, as labaredas se alastravam com facilidade na madeira rica, quando ele parou e disse:

- Jéssica?!

- Sim?

- Você está vendo?

- Sim, o fogo está se alastrando muito rápido. 
Disse sem entender muito bem.

- Não, não isso. Há uma infração! Disse quase rindo.

- Como assim? Falei confusa.

- Veja, aquela árvore está próxima ao fio, e logo que o fogo chegar ao topo dela, isso causará um incêndio.

- Causará um incêndio! Precisamos fazer alguma coisa! Exclamei nervosa.

Ele ficou parado em pânico, sua face trazia a frase: ”- O que vamos fazer?”.

- Á-gua. Eu disse gaga.

- Chamaremos os bombeiros? Sugeriu ele.

- Eles irão demorar a chegar. Respondi.

- A casa da minha tia é próxima, vamos...
Anunciou e me puxou, rapidamente voltamos com tudo o que precisávamos, baldes, água e um carro emprestado.

- Eu vou à frente checar se eles já foram embora.

- Tudo bem eu espero aqui, vou olhar o carro.

Ele virou, e eu fiquei olhando as costas dele desaparecerem na escuridão. Eu estava com medo, era tarde da noite e aquela árvore poderia custar à vida de muitas pessoas, enquanto mergulhava em pensamentos, um rosto apareceu na escuridão. De primeiro achei que fosse meu namorado, mas não era.

O rapaz ia passando direto por mim, quando de repente parou, e disse:

- Foi você quem entrou no restaurante e estava me encarando, não foi? Ele parecia nervoso, reconheci, o destruidor, ele sorriu, senti um arrepio passar pela minha espinha, aquilo não era bom.

- Não. Disse involuntariamente.

- Era você mesmo! Gritou ele avançando para cima de mim, e tirando uma faca de dentro da calça.

Eu ia morrer. Não, eu não podia morrer. Não ainda. Ele avançou mais, tentei correr, mas tropecei em uma pedra e cai, gritei desesperadamente:

- Socorrooooooooooooo... - Caaaaarloooosssss... - Socorroooooorrrrroooooooo...

Então da escuridão veio à luz, do barulho a calmaria, da morte surgiu à vida. Era ele, meu amor, meu namorado. Ele puxou o homem de cima de mim, e o outro tentou esfaqueá-lo, e acertou seu ombro, quando meu namorado, empurrou-o, tirou um revolver do bolso ágil e atirou no coração do outro que caiu em seguida morto.

Ele jogou a arma no chão, correu até mim e me abraçou. Os bombeiros chegaram, apagaram todo fogo, não houve incêndio. Achei ter visto alguém com um manto preto, observando-nos a distancia, devia estar realmente cansada, precisava ir para casa.

Depois daquele dia, Carlos foi ao tribunal para ser julgado, o caso encerrou-se considerado homicídio por legitima defesa. Ele ficou conhecido como herói, se não fosse por ele, a cidade estaria em chamas, e eu estaria morta.

Mas nada disso aconteceu, graças a ele.

Uma semana depois...

Nós havíamos combinado de sair àquela noite, estava pronta, a sua espera, ansiosa, nervosa. Ele disse que tinha algo para me dizer, não tinha ideia do que era talvez fosse dizer que me amava, ele não era muito de falar sobre sentimentos, namorávamos há três anos e o máximo que ele me disse foi: - Eu gosto de você.

Sentei em frente de casa e esperei. Passou-se uma hora. Atrasado.  Mas homens são assim mesmo. Duas, três, três e meia. Ele não viria mais. Desisti.

***

Um rapaz tocou a campainha e gritou:

- Correio!

Fui buscá-lo, era um pacote retangular, o endereço era da casa dos pais de Carlos, abriu-o, era um livro, A abadia de Northanger de Jane Austen, o último para completar minha coleção, havia um pedido de desculpas dos seus pais, dizendo que não conseguiram mandar o pacote antes por causa da greve. Comecei a lê-lo e voltei a chorar, quando um pequeno pedaço de papel caiu de dentro do livro, estava escrito:

Eu amo você minha querida. Eu sei que não costumo falar de sentimentos, mas hoje é uma data especial. Hoje faz três anos que minha vida mudou. Quero que saiba que antes de você aparecer, nada fazia sentido, eram apenas linhas tortas, fragmentos, sem razão de ser.

Eu amo você, eu amo você, eu amo você. Quero repetir isso eternamente, até o meu último suspiro.

Nosso amor é como o fogo que se alastra, incendeia, ora quente, ora terno.

 Amor. Apenas amor.

Uma vez você me disse que queria ficar comigo para sempre e eu disse: - Mas sempre é muito tempo, não acha? E você respondeu: - Às vezes sim, às vezes não. Aquela foi a coisa mais linda que eu já ouvi.

O tempo é curto, mas lembranças são eternas.

Eu voltei à vida, quando você apareceu.

 Agora, apenas uma pergunta simples, ou não. - Você quer casar comigo?

P.s.: Já estou chegando e espero ouvir um sim.

Mas ele nunca chegou, ele havia sumido desaparecido para sempre, aparentemente aquele pacote era para ter sido entregue no dia que fiquei esperando na frente de casa. Mas isso obviamente não aconteceu.

Hoje tenho sessenta anos e posso jurar que aquele dia foi ontem, posso ver as labaredas de fogo dançarem, os seus olhos verdes marejados de lágrimas, o medo, a desumanidade e aquele manto preto na escuridão que ignorei.