Espelho


Ela mentiu para o espelho, mentiu com a convicção absurda a qual estava acostumada a fazer e todos acreditaram, inclusive ela.

(Pág. 3 – Diário/2 )

Do que você tem medo?


Eles estavam sentados na calçada displicentes, ela olhava o nada e ele a olhava com intensidade, sem que percebesse ele se viu perguntando aquela que roubava toda a sua atenção:

- Do que você tem medo Jessica?

Ela virou o rosto em sua direção, os cabelos embaralhados por causa do vento, não fez nenhum gesto para ajeita-los, deixou-os livres, e após uns dois minutos de silencio que pareceram uma eternidade, respondeu:

- Eu tenho medo de pessoas rasas. Vazias.


Vampiros


Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo. 

Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne. 

Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor. 

Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.

(Martha Medeiros)

A noite prometia...


Saímos da cafeteria com insatisfação e ânsia por algo mais.
Caminhamos, trocamos amabilidades, segredos, falamos sobre o amor e suas divergências desagradáveis, discutimos o futuro e por fim entramos em um parque, praticamente deserto e com pouca iluminação, chovia, chovia muito. Um cenário mais que ideal.

Obriguei-o a fazer o pedido, me senti jovem e então ele me invadiu com suas palavras, seus olhos, sua língua, seus braços e seu carinho.

Foi incrível, mas não era meu lar.

Enquanto nos beijávamos a minha mente se esvaziava e ao contrario da primeira vez já não senti culpa, não era mais algo “proibido”. Senti vazio e tristeza. Carência.

O cenário ideal, o momento perfeito, sintonia, clima.
Cinema.
Faz de conta. Mentirinha.

(Pág.114 – Jessica Florentino)

Diálogo


- Eu sou tudo. 

Diz ele com seu tom arrogante acariciando levemente o meu braço com o dedo indicador. Viro o corpo em direção à janela, afasto-me, levanto meu copo de uísque e levo até a minha boca, engulo o liquido amargo e digo em resposta: 

- Não. Você não é nada, é apenas uma sombra de algo que ficou para trás.

(Jessica Florentino)