Desvio


Luzes incandescentes iluminavam o seu rosto, árvores, neblina e prédios abandonados completavam a paisagem ao nosso redor, tudo mágico, misterioso, assombroso.  
Fomos dar uma volta e ao longo do caminho ele me fez perguntas sobre a minha vida.  Estranhei.
Ele sempre fora próximo, mas não tão atencioso assim.  

Então, ele me olhou de um jeito diferente e eu fiquei me questionando se tinha feito a escolha correta.
Seu olhar era tão intenso e a sensação que eu tinha era que ele havia paralisado o meu.

De repente, o medo me assolou, fiquei apreensiva: “E se que alguém me visse naquela situação, no mínimo, suspeita e entendesse tudo errado? ” Afinal as pessoas tendem a ilusão - acreditam sempre naquilo que querem e não no que realmente é.

Ele não pareceu notar minha angustia e se notou, fez pouco caso. Aproximou-se e disse:

- Está frio aqui, não acha? E sem esperar pela resposta veio em minha direção e me puxou, como quem pega um brinquedo elástico.
Meu corpo era minúsculo em comparação ao dele, seu cheiro era agradável e por mais transgressor que pudesse ser, eu gostei da sensação do seu corpo envolto ao meu, suspirei, naquele instante lembro de ter pensado:
“Isso não pode ser mais certo”.

E se alguém pudesse ler todos os meus pensamentos acharia que eu estava ficando louca ou que havia em minha personalidade um sério desvio de caráter, mas não se tratava nem de uma coisa, nem da outra. Nós dois sabíamos do que se tratava.

- Precisamos ir. Anunciei quebrando o elo e interrompendo o burburinho na minha própria cabeça.

- Por que tão cedo? Perguntou, seu tom de voz parecia levemente confuso, mas quando eu o encarei, senti que ele também sabia do que eu desviava.

E sem respostas me desaninhou e do desvio se foi.


Por: Jessica Florentino

Lagoa Azul


Uma garota entra no bar, pede um drink, lagoa azul, leva-o a boca, saboreia e então começa a chorar. Dois rapazes a distancia começam a observar.
Entra um casal, ela é jovem, ele é experiente.
Retrospectiva.
Lagoa azul. Baseado. Celulares desligados. Fumaça. Borrão de batom. Quarto de motel barato e mais fumaça.
Bar, lagoa azul.
Lágrimas. Soluços, e não necessariamente nessa ordem.

Agora todos observam. Um dos rapazes pensa em ir consolar a moça, mas logo desiste, pensa que não tem nada com aquilo e logo se distrai com algo mais interessante como as redes sociais.  
Desolada, abandonada, sozinha no bar.

Pede mais um drink azul e retorna a chorar. O seu whasapp começa a tocar.
28 mensagens não lidas. 25 correntes de réveillon, 1 da sua mãe, 1 do trabalho e outra mensagem de alguém que finge se importar:

“- Como você está?”

“-Estou b... Digita, no entanto, logo substitui por:

“Estou azul.”

Dois traços azuis, mensagem visualizada, sem resposta.
E assim continua azul em um bar.

(Pág.7 – Diário/2)




Espelho


Ela mentiu para o espelho, mentiu com a convicção absurda a qual estava acostumada a fazer e todos acreditaram, inclusive ela.

(Pág. 3 – Diário/2 )

Do que você tem medo?


Eles estavam sentados na calçada displicentes, ela olhava o nada e ele a olhava com intensidade, sem que percebesse ele se viu perguntando aquela que roubava toda a sua atenção:

- Do que você tem medo Jessica?

Ela virou o rosto em sua direção, os cabelos embaralhados por causa do vento, não fez nenhum gesto para ajeita-los, deixou-os livres, e após uns dois minutos de silencio que pareceram uma eternidade, respondeu:

- Eu tenho medo de pessoas rasas. Vazias.


Vampiros


Eu não acredito em gnomos ou duendes, mas vampiros existem. Fique ligado, eles podem estar numa sala de bate-papo virtual, no balcão de um bar, no estacionamento de um shopping. Vampiros e vampiras aproximam-se com uma conversa fiada, pedem seu telefone, ligam no outro dia, convidam para um cinema. Quando você menos espera, está entregando a eles seu rico pescocinho e mais. Este "mais" você vai acabar descobrindo o que é com o tempo. 

Vampiros tratam você muito bem, têm muita cultura, presença de espírito e conhecimento da vida. Você fica certo que conheceu uma pessoa especial. Custa a se dar conta de que eles são vampiros, parecem gente. Até que começam a sugar você. Sugam todinho o seu amor, sugam sua confiança, sugam sua tolerância, sugam sua fé, sugam seu tempo, sugam suas ilusões. Vampiros deixam você murchinha, chupam até a última gota. Um belo dia você descobre que nunca recebeu nada em troca, que amou pelos dois, que foi sempre um ombro amigo, que sempre esteve à disposição, e sofreu tão solitariamente que hoje se encontra aí, mais carniça do que carne. 

Esta é uma historinha de terror que se repete ano após ano, por séculos. Relações vampirescas: o morcegão surge com uma carinha de fome e cansaço, como se não tivesse dormido a noite toda, e você se oferece para uma conversa, um abraço, uma força. Aí ele se revitaliza e bate as asinhas. Acontece em São Paulo, Manaus, Recife, Florianópolis, em todo lugar, não só na Transilvânia. E ocorre também entre amigos, entre colegas de trabalho, entre familiares, não só nas relações de amor. 

Doe sangue para hospitais. Dê seu sangue por um projeto de vida, por um sonho. Mas não doe para aqueles que sempre, sempre, sempre vão lhe pedir mais e lhe retribuir jamais.

(Martha Medeiros)